segunda-feira, 15 de novembro de 2010

NA AMÉRICA DO SUL

Prisão e penitência
Presença de João Maria
na Argentina de Rosas



Publiquei em postagem anterior que João Maria de Agostini chegara à Argentina por volta de 1830 e lá permanecera por cerca de 14 anos. O professor Paulo Pinheiro Machado leu, ficou em dúvida e entrou em contato com seu colega Alexandre Karsburg* para solicitar esclarecimentos. Karsburg, por sua vez, entrou em contato comigo, questionando a informação, o que me levou a vasculhar as anotações e documentos até descobrir ter cometido um equívoco. Fiz a devida anotação no corpo da própria postagem.

Como a presença de João Maria de Agostinho na Argentina é também (quase totalmente) desconhecida da historiografia brasileira, vamos aos fatos, segundo o professor Alexandre Karsburg, doutorando em História Social da UFRJ, hoje o principal pesquisador da vida e religiosidade do monge no Brasil.
(C.M.)


 Fragmentos do tempo - O que sabemos sobre a chegada de João Maria na região?
Alexandre Karsburg - João Maria de Agostini chegou na América em meados de 1838, partindo de Gênova (Itália) direto para Caracas, na Venezuela. Após isso, o eremita viveu algum tempo na Cordilheira dos Andes, peregrinando de um país para o outro, permanecendo algum tempo na Colômbia, depois Equador e Peru.

FT - E no Brasil?
Karsburg - O monge entrou no Brasil em 1843 via floresta amazônica, pela então vila de Tabatinga. Seguiu o curso dos rios até chegar em Belém, capital da província do Pará, onde tomou o vapor Imperatriz rumo ao Rio de Janeiro. Na capital do Império chegou a 18 de agosto de 1844, e foi habitar no alto do Cerro da Gávea por quatro meses. Em 15 de dezembro tomou outro vapor e foi para Santos. Desta importante cidade portuária subiu a serra, passou rapidamente por São Paulo e foi surgir em Sorocaba no dia 24 de dezembro de 44.

FT - É quando a historiografia brasileira passa a registrá-lo. O que acontece depois?
Karsburg - Após isso perdi a pista dele, encontrando-o novamente em Buenos Aires. Não se sabe se João Maria percorreu a distância entre Sorocaba e Buenos Aires por terra, talvez ele tenha voltado a Santos e dali tomado um vapor para a região platina. O fato é que ele chegou a Buenos Aires - possivelmente em 1845 - e foi se apresentar ao governador Juan Manoel de Rosas para pedir permissão para atuar como pregador do Evangelho. Acabou sendo enviado aos índios charruas que habitavam na fronteira entre Uruguai e Brasil. Como João Maria não era um missionário de índios, antes um pregador ambulante e autônomo, não obteve sucesso com os índios, voltou para Buenos Aires e foi detido por Rosas por desobediência. Foi duro para o italiano conseguir ser posto em liberdade, na verdade, ele não chegou a ficar exatamente preso, mas estava impedido de sair de Buenos Aires sem a permissão do governador.

FT - Mas conseguiu sair...
Karsburg - ...após alguns meses. Rosas concedeu passaporte para a província de Corrientes, no norte da Argentina. E lá se foi o eremita em peregrinação. Só que o italiano passou para o lado brasileiro, entrando no Rio Grande do Sul e estabelecendo moradia em dois cerros: Campestre, em Santa Maria, e no Botucaraí, na época pertencia ao município de Rio Pardo. Nestes dois cerros iniciou a sua trajetória de monge santo, não antes disso. Estamos em meados de 1847.

FT - O que mais pode acrescentar em relação à presença de João Maria na Argentina?

Karsburg - Rosas aceitava perfeitamente a presença de padres, missionários e pregadores em Buenos Aires, contudo, exigia deles algumas tarefas especiais, como ir até tribos indígenas catequizá-los. Acontece que estas tribos se encontravam em território a ser conquistado, fronteiras políticas não definidas, entre Buenos Aires, Corrientes, Entre-Rios (Argentina), República Oriental, Paraguai e Brasil. João Maria foi enviado para catequizar os índios charruas que viviam, em 1845, ao longo do Rio Uruguai, interior da República Oriental e Rio Grande do Sul. Rosas insistia que os missionários agissem como agentes políticos procurando tornar os índios nômades aliados de Buenos Aires. Para alguns missionários europeus foi difícil, quando não impossível, aliar intenções evangélicas com objetivos políticos. João Maria de Agostini não se adaptou a isso, nem ele e nem uma série de capuchinhos italianos e jesuítas que atuavam nos sertões da América do Sul em meados do século XIX.

FT - E a prisão dele?
Karsburg - João Maria esteve impedido de sair de Buenos Aires por um período entre 11 e 14 meses, e isto deve ter ocorrido entre 1845 e 1846. Na verdade, não consegui encontrar documentos que demarcassem o tempo exato de sua detenção em Buenos Aires.

FT - Como conseguiu reunir todas estas informações?

Karsburg - O trabalho do historiador por vezes é dificultado pela falta de fontes. Por sorte nossa, quando o monge esteve auto-exilado na Ilha do Arvoredo, entre dezembro de 1848 e maio de 1849, um sacerdote foi até lá conversar com ele, e desta entrevista produziu um relatório extenso sobre o passado recente de João Maria, inclusive de sua passagem pela Argentina e as desavenças com Rosas. Comparando as informações que o sacerdote apresentou em seu relatório aos depoimentos de dois franceses que também afirmaram terem visto João Maria em Buenos Aires, foi possível chegar às informações de sua estada na região platina. Mas o mais interessante disto foi que o eremita Juan Maria de Agostini, aquele que peregrinou nos desertos dos Estados Unidos entre 1863 e 1869, deixou manuscritos sobre suas viagens pela América. Em um trecho conta ter sido, de início, bem tratado pelo "ditator Rosas", mas este o obrigou a ir "catequizar índios nos pampas". O eremita não menciona sua detenção, mas registrou que saiu de Buenos Aires pelo tratamento "pouco lisonjeiro" de Rosas após seu retorno da catequese dos índios.

 
 *Alexandre Karsburg, autor do livro “Sobre as ruínas da velha matriz: religião e política em tempos de ferrovia” (Editora da UFSM, 2007), possui graduação em História pela Universidade Federal de Santa Maria, mestrado em História pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul e, atualmente, é doutorando em História Social pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, sob orientação da professora Dr. Jacqueline Hermann. No doutorado, desenvolve pesquisa sobre a trajetória do italiano Giovanni Maria de Agostini na América, que ficou conhecido no sul do Brasil como monge João Maria.

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