quinta-feira, 24 de novembro de 2011

Crônicas do Irani (2)
Fala Antônio Martins
Fabrício das Neves

 Antônio Martins Fabrício das Neves. Irani, 2007. Foto: Margaret Grando

No dia 17 de outubro de 1990, o senhor Antônio Martins Fabrício das Neves foi entrevistado pela professora Eunice Cadore Franzack em sua residência na Fazenda Bela Vista, no Irani-SC. A entrevista gravada foi transcrita por Dylce Joana Weirich e se encontra no Museu Histórico de Concórdia-SC.
Nascido em 13 de junho de 1922, filho de João Damas Fabrício das Neves e de dona Gertrudes Martins de Lima, Antônio cresceu ouvindo relatos do entrevero e seus personagens. Nos anos 1930 ele colocou em versos as informações recolhidas.

O que ele diz sobre José Maria, José Fabrício das Neves e o combate de 1912?

Fabrício era “um dos de mais confiança” do monge. “Até o José Maria disse que ajudou muito ele nesse ideal de colonização, então depois ficaram muito conhecidos, muito amigos. O José Maria tinha ele como um assessor dele, mas um assessorava o outro porque não tinha um posto maior que o outro”.

No dia do combate José Maria disse a José Fabrício “que se era para morrer gente ele ia morrer”, pois não ia deixar “essa coloniada tudo aí na frente e eu ficar lá atrás, e nós temos que ir na frente”.

José Maria “não falava” do monge João Maria, “nunca falou”. Era uma “pessoa que só pensava para o bem, ele, acho que ele era mesmo um legítimo monge”. Era um “um homem muito inteligente, muito, ele falava onze línguas e rezava uma missa como os padres antigos rezavam”. Rezou uma missa no Irani antes da batalha. “Diz que previu que ia morrer por que ele disse para o Fabrício – eu vou morrer, mas você não passe do meu sangue que você vai ser um herói no mato. Agora se você vai para a cidade... No campo você vai ser um gato, no mato você é uma onça e no campo você é um gato. Não passe”.

Disse ainda José Maria a José Fabrício: “Venha até onde nós brigamos e vencemos e volte para trás, não passe do nosso sangue que nós derramamos. Mesmo porque daí você só vai mal. No mato você é uma onça e lá no campo você é um gato. Então, respeite isso aí. E foi o que aconteceu, o Fabrício se iludiu, passou, e aconteceu terminando morrendo”. Nos versos que escreveu Antônio se refere a tigre no lugar de onça.

Num determinado momento Eunice pergunta qual o motivo do Combate do Irani. Segundo Antônio, circulam “muitas idéias” a respeito, “mas o que o povo sem estudo aqui previa no mato eu concordo que eles estavam certos”. Ou seja, “havia qualquer interesse sobre aquele terreno, e esses general lá, esses comandante do Exército”, precisavam de um motivo “para não vir simplesmente vir aqui matar ou fazer o que eles queriam, inventaram aquilo”. Inventaram que “estavam formando um reduto de jagunço, a santidade”, o que provocou “um escândalo aqui no sertão”.

Segundo o depoente, “não era verdade”, porque “esse José Maria era um homem de muito estudo de muito respeito, e eles tinham ele como um bandido, mas bandido que não tinha morte, não houve nada”. Existiam na época “centros de colonos trabalhando com eles aí a espera da iniciativa que eles tinham. Então eu acho que nesse combate aí havia algum interesse particular”. De quem? Pergunta a professora Eunice. “Eu acho que de alguns prevendo não deixar eles fazer o que eles queriam”, destaca, “que era a posse da terra para todo mundo”.

Naquele tempo, observa Antônio Martins Fabrício das Neves, nas regiões de Palmas, Curitibanos e “na costa do mar”, “já tinha essa gente muito rica, tinha esses donos que trabalhavam na estrada de ferro, porque eles já queriam colonizar. Então eu acredito que o pessoal ficou nessa suspeita, que houve isso por causa do próprio terreno, não foi por outra coisa”.

Questionado sobre problemas ocorridos em Palmas quando um grupo de moradores foi buscar títulos de terras, Antônio confirmou que o cartório de Palmas pediu que José Fabrício fosse até lá, que “ajudava e fazia o possível de documentar todo esse pessoal que ele levasse”. Porém, continua, “o interesse de outra gente, de algum, o interesse de algum outro pegar aquela frente que o Fabrício estava praticando, para fazer a colonização. Tudo isso era o nosso povo, a fabriciada daqui como a senhora dizia, ficou nessa suspeita, e eu concordo com eles que isso quase que seria uma realidade”.

Um dos autores mais respeitados no tema Contestado, Maurício Vinhas de Queiroz, parece ter bebido na mesma fonte do senhor Antônio Martins Fabrício das Neves para escrever o capítulo sobre o Combate do Irani em seu livro “Messianismo e conflito social”.

Neste livro, resultado de pesquisas entre os anos de 1953 e 1961, Queiroz enfatiza a ocupação dos campos do Irani por famílias vindas do Rio Grande do Sul após a Revolução Federalista e os interesses do coronelismo de Palmas. “José Maria há muito conhecia o povo do Irani. Considerava-o sua gente. Não é de estranhar que, perseguido” em Santa Catarina, “tenha surgido” em outubro de 1912 “no chamado Faxinal dos Fabrícios”. (QUEIROZ, p. 91-92) (Por Celso Martins, outubro de 2011)

Fontes
1) Transcrição da entrevista de Antônio Martins Fabrício das Neves a professora Eunice Cadore Franzack (Fazenda Bela Vista, Irani-SC), em 17 de outubro de 1990, existente no Museu Histórico de Concórdia-SC.
2) QUEIROZ, Maurício Vinhas de. Messianismo e conflito social – A guerra sertaneja do Contestado. São Paulo: Ática, 1981. 

José Fabrício das Neves (a direita, de branco) com seu estado-maior em Catanduva-SC (1919). Reprodução: Celso Martins. Acervo: Cecília B. Talim (Concórdia-SC). 

quarta-feira, 16 de novembro de 2011

 O COMBATE DO IRANI

 Cemitério do Contestado no Irani. Novembro de 2011. Foto: Celso Martins

Apresentação

Iniciamos a publicação de uma série de “Crônicas do Irani” discutindo alguns momentos do Combate de 1912 no Banhado Grande do Irani, marco inicial da Guerra do Contestado.
Não se trata de uma compilação de informações publicadas em outras fontes. As bases da série são 30 entrevistas com antigos moradores do Meio Oeste catarinense e do Sudoeste do Paraná, um depoimento do Sr. Antônio Martins Fabrício das Neves ao Museu Histórico de Concórdia e o Processo do Irani (518 páginas) cedido pelo professor Paulo Pinheiro Machado (UFSC).
O uso destas fontes levou à construção de outra “história” do Combate do Irani, revelando personagens quase absolutamente desconhecidos e ausentes da historiografia do Contestado, e os elementos motivadores: a luta pela terra e não por questões de limites entre Santa Catarina e Paraná.
Grato
Celso Martins



Crônicas do Irani (1)
Motivações de um combate

Por Celso Martins*

Ao longo do ano permanecem discretas, com suas folhas alongadas e pontudas, mas quando chega a Primavera e se aproxima o dia de Finados, as flores brotam com uma singela exuberância, enfeitando o Cemitério do Contestado, no município do Irani, região do meio-oeste catarinense. Ao lado existe um museu e, mais adiante, o local do combate de 22 de outubro de 1912, estabelecido pela historiografia como o marco inicial da Guerra do Contestado.

O lugar é conhecido como Banhado Grande do Irani, Faxinal dos Fabrício, símbolo da presença das famílias vindas da região de Passo Fundo-RS, entre fins do século 19 e início do século 20, área indicada a eles por um “monge” – entre os rios do Peixe, Iguaçu e Uruguai. Quase todos estiveram envolvidos nas lutas ocorridas no Sul do Brasil entre os anos de 1893 e 1895, episódio conhecido como Revolução Federalista.
Eram quase todos, maragatos ou federalistas, antigos liberais no Império, muitos dos quais pegaram em armas contra o domínio de Júlio de Castilhos. Derrotados e perseguidos de alguma forma no pós-conflito, buscaram refúgio nos campos do Irani, entre Concórdia-SC e Palmas-PR, dedicando-se ao plantio de milho associado à criação de porcos, à pecuária, à extração da erva-mate e a coleta do nó-de-pinho. Adotavam a antiga religiosidade católica simbolizada pelo culto a São João e ao Divino Espírito Santo.

A prosperidade e a paz iniciais foram quebradas por um fenômeno chamado capitalismo, momento em que a terra que tinha valor de uso passa a ter valor de mercado. As mesmas terras que antes pertenciam à União (Império), com a República passam às mãos dos estados e rapidamente repassadas a empresas interessadas na colonização e na exploração das riquezas naturais, sobretudo a madeira, os pinheirais.

Os antigos habitantes da região, brasileiros outrora estimulados pela política oficial do uti possidetis, ou a posse como garantia de ocupação e conquista de territórios reivindicados pela Argentina, tiveram seu modo de vida desestruturado, as relações sociais como as de compadrio abaladas ou mesmo rompidas em muitos casos. O caboclo que garantiu aquelas terras para a Nação, fonte de fartura alimentar, vestuário e moradia, se vê ameaçado em seu presente e futuro.

Não são apenas os ecos da modernidade que chegam aos sertões. As bases desta mesma modernidade, ou do capitalismo nascente, se transferem para estas áreas anteriormente “esquecidas” pelo poder público e pela própria Nação. É o fermento da revolta. João Maria anunciara o Apocalipse próximo em suas peregrinações, fizera profecias do que estaria por vir – a ferrovia, a extração mecânica de uma quantidade descomunal de pinheiros e outras árvores nobres, o cercamento e a demarcação das terras e sua venda a famílias vindas do Rio Grande do Sul.

Momento em que “tudo que é sólido se desmancha no ar”, como dizia Marx, ou seja, quando nada do que foi será, o prolongado instante de transformação da paisagem, dos hábitos e costumes, das relações familiares, religiosas, sociais e econômicas.

Com os homens e mulheres do Irani as coisas não foram diferentes. Fazendeiros de Palmas, então a região mais importante do interior do Paraná, escrituram as terras dos campos de Palmas até o rio Uruguai. Entre estes “posseiros” estão os Fabrício das Neves, sobretudo José, parceiro de José Maria de Castro Agostinho. Ao contrário do que a historiografia e as más-línguas tentam impor, José Maria não era nenhum desequilibrado, não existem provas de ser desertor, nem de defloramento em Palmas.

 
“Invasão”

O que temos são relatos como os de Antônio Martins Fabrício das Neves, confirmando a presença de José Maria entre os moradores do Irani. Também existem registros de sua presença em Palmas e outras cidades do Paraná. Outros relatos situam o monge como amigo do coronel Miguel Fragoso, na região de Engenho Velho, atual Concórdia. Sua presença em Campos Novos se dá apenas em fins de 1911, depois vai a Taquaruçu (Curitibanos), onde fica até setembro, quando volta ao Irani.

José Fabrício estava com ele e oferece hospedagem ao grupo de 40 pessoas, aproximadamente. Em seguida todos se estabelecem na casa de Thomaz Fabrício das Neves (irmão de José Fabrício), seguindo por último para a residência de  um tio de ambos, Miguel Fabrício das Neves, onde se estabelece o reduto.

A chegada de José Maria no Irani, disposto a resistir às ameaças de expulsão das famílias ali estabelecidas, foi a senha para que os fazendeiros de Palmas entupissem os jornais de Curitiba alarmando a população: tratava-se de uma invasão de catarinenses ao território paranaense visando forçar o cumprimento de sentenças judiciais entregando a região ao estado vizinho, Santa Catarina. Criou-se um estado de comoção. Estudos realizados no Paraná indicam a intensidade da campanha desenvolvida a partir de Palmas.

A partida da força policial do Paraná para a região do Irani, sob o comando do coronel João Gualberto, oficial ilustre e de largo preparo militar, representou a oportunidade para os fazendeiros de Palmas se verem livres dos “posseiros” dos campos do Irani. A antiga Questão de Limites foi usada com habilidade para a consecução de objetivos escusos. O coronelismo nascente e dominante na Primeira República dava as cartas, como deu as cartas em todo o episódio do Contestado, envolvendo os militares na carnificina e, mais recentemente, culpando a ferrovia por tudo que aconteceu na região.

As flores que anualmente inundam de branco o Cemitério do Contestado no Irani, lançam os primeiros brotos por volta do dia 22 de outubro, como a homenagear os combatentes mortos há 99 anos. As pontas das folhas que terminam em espinhos abdicam do aspecto ameaçador exatamente nesse período em que lembra os mortos. A vida celebrando aquele que deu a vida na defesa de seu chão.  (Por Celso Martins, outubro de 2011)

Fonte
MARTINS, Celso. O mato do tigre e o campo do gato. José Fabrício das Neves e o Combate do Irani. Florianópolis: Insular, 2007.

*Celso Martins da Silveira Júnior, Laguna-SC, 23.11.1955. Jornalista (desde 1976) e historiador (2003-2007, Udesc). Autor de “Os Comunas – Álvaro Ventura e o PCB Catarinense” (1995), “Farol de Santa Marta – A esquina do Atlântico”, (1997), “Aninha virou Anita” (1999), “Tabuleiro das Águas” (2001), “Os quatro cantos do Sol – Operação Barriga Verde” (2006) e  “O mato do tigre e o campo do gato – José Fabrício das Neves e o Combate do Irani” (2007), entre outros. Atuou nos seguintes veículos: jornais O Estado, A Notícia, Jornal de Santa Catarina, A Gazeta, Bom Dia Domingo, Diário Catarinense (Diários Associados) em Florianópolis e diário Extra de Joinville; revista Mural; rádio Guarujá; TV Barriga Verde. Contato: celsodasilveira@gmail.com.


segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

Tomazi, Welter e a religiosidade de São João Maria

*

A MÍSTICA DO CONTESTADO

A mensagem de João Maria na experiência
religiosa do Contestado e dos seus descendentes

Mestrado em Ciências da Religião/PUC-SP

GILBERTO TOMAZI

RESUMO

O Contestado é um dos maiores movimentos populares e conflitos armados da história do Brasil. Ele aconteceu durante os anos 1912 a 1916 e abrangeu uma região que equivale à terça parte do território catarinense e o sudoeste do Paraná. Além de sua amplitude geográfica, do tempo prolongado da guerra, impressiona o fato de que o mesmo tenha envolvido diretamente algumas dezenas de milhares de pessoas e milhares de mortos. O Contestado marcou e continua ainda hoje a influenciar a vida, a cultura e a religiosidade dos que dele sobreviveram e seus descendentes.

Essa dissertação estuda e explica a mística do Contestado, desde uma perspectiva simbólica-cultural e a partir da recepção e ressignificação atuais da mensagem de João Maria. Esta mística e esta mensagem sobrevivem em diversas expressões e representações religiosas dos descendentes do Contestado. Resgatá-las, desde as suas origens até os dias atuais, é o caminho percorrido por esta dissertação.

Em torno do Contestado e da mensagem de João Maria surgiram diversos mitos, ritos, símbolos, sacrifícios e rezas que ainda hoje são conservados na memória popular dos descendentes do Contestado e reinterpretados em sua experiência religiosa. Depois de quase um século, o próprio Contestado já foi ressignificado de tal forma que a comunidade cabocla encontra nele um sentido, uma inspiração e uma mística que lhe permite viver no presente de maneira solidária, com estima e reconhecimento, enfrentando a dura realidade em que se encontra, confiante em dias melhores.

Depois de uma revisão e análise bibliográfica, resgatando aspectos históricos, geopolíticos, sócio-econômicos e, especialmente, culturais e religiosos do Contestado, foram emprestadas as informações mais preciosas desta dissertação, contidas nos relatos de pessoas do povo, que guardam viva a memória da mensagem e da mística de João Maria. Com isso foi possível trilhar um caminho de resgate e valorização da cultura e da experiência religiosa e popular do Contestado.

Íntegra (PDF)

*

Artigo de Gilberto Tomazi (18 páginas) intitulado A MENSAGEM DE “SÃO” JOÃO MARIA: E SUA RESSIGNIFICAÇÃO NA EXPERIÊNCIA RELIGIOSA DO CONTESTADO. Confira.

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UNIVERSIDADE FEDERAL DE SANTA CATARINA
CENTRO DE FILOSOFIA E CIÊNCIAS HUMANAS
DEPARTAMENTO DE ANTROPOLOGIA
PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM ANTROPOLOGIA SOCIAL
 
O PROFETA SÃO JOÃO MARIA  
CONTINUA ENCANTANDO NO MEIO DO POVO

 
Um estudo sobre os discursos contemporâneos
a respeito de João Maria em Santa Catarina


Tânia Welter

Resumo

Este é um  estudo sobre os discursos contemporâneos a respeito de João Maria em Santa Catarina, sul do Brasil. Partindo da noção de  discurso como ação humana significativa (Ricoeur), afirmo que os discursos a respeito de João Maria são construídos pelos joaninos a partir de sua cultura histórica (formada por valores, símbolos, imagens, personagens, eventos contextuais e um catolicismo difuso), possuem temporalidade, expressam algo e são disponibilizados para outras  leituras e  interpretações. É o próprio discurso dos joaninos que serve como mecanismo de  legitimação de João Maria, dos discursos atribuídos a ele, dos próprios discursantes (joaninos) e de sua cultura histórica. João Maria é visto, neste trabalho, como evento fundante, em torno do qual gravitam  muitos sentidos, e como entidade multivalente, identificado como Deus, Jesus Cristo, Profeta, Santo  ou símbolo da  luta pela terra. Legitimados, os discursos a respeito de João Maria apresentam-se como adequados na interpretação do mundo dos joaninos, no controle da indeterminação do mundo, para anunciar e acabar com o mal, reagir contra aquilo que não está de acordo com sua cultura, estimular a luta política ou anunciar o mundo desejado.  

Íntegra (PDF)




quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

AS PALEOTOCAS DE PORTO UNIÃO

 
 Caverna usada pelo monge foi
aberta por uma preguiça gigante



Preguiça gigante (Glossotherium robustum). Por Renato Lopes

Por Celso Martins (texto e fotos)

A caverna usada pelo monge João Maria* em Porto União-SC é, na verdade, uma paleotoca, ou seja, uma "toca cavada por animais extintos que viviam em parte em abrigos subterrâneos", possivelmente uma preguiça gigante, segundo o geólogo Heinrich Theodor Frank. As outras duas tocas existentes ao lado da maior surgiram pela ação de tatús gigantes, animais com até 250 quilos de peso, segundo a mesma fonte.  Esses animais desapareceram a cerca de 10 mil anos. No caso de Porto União as tocas foram cavadas em rocha denominada Arenito Botucatu (a mesma do Aquífero Guarani).

Frank tomou conhecimento das tocas por uma postagem na primeira versão do blog Fragmentos do tempo  ("1983: João Maria e as cheias de Porto União", 29.11.2008). Interessado, fez contato e obteve outras imagens ao titular do veículo. Pouco depois retornou a mensagem confirmando as suspeitas iniciais. A descoberta foi publicada na revista Toca News, órgão oficial do Projeto Paleotocas.

O referido Projeto Paleotocas é desenvolvido um grupo de pesquisadores da Universidade Estadual Paulista (UNESP-SP), Fundação Zoobotânica do Rio Grande do Sul (FZB-RS), Fundação Universidade de Rio Grande (FURG-RS), Universidade de São Paulo (USP-SP) e Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS-RS). A iniciativa tem a coordenação geral do professor Francisco Sekiguchi de Carvalho Buchmann, da UNESP-São Vicente-SP. Na Região Metropolitana de Porto Alegre, por uma questão de logística, a maior parte das atividades é coordenada pelo professor Heinrich Theodor Frank.
 
Existem dessas paleotocas em diversos países do mundo, estando presentes também em vários estados brasileiros. Em Santa Catarina foram identificadas e estudadas paleotocas em Urubici e localizadas várias estruturas nos municípios de Vidal Ramos, Leoberto Leal e Brusque. Também existem paleotocas em São Joaquim, identificadas inicialmente pelo paleontólogo Alceu Ranzi.

*Possivelmente João Maria de Jesus, considerado o segundo dos três monges do Contestado (João Maria de Agostini, João Maria de Jesus e José Maria de Castro Agostinho). Sabemos por pesquisas mais recentes (Paulo Pinheiro Machado, Ivone Gallo, Nilson Thomé etc) que muitos outros monges circularam pela região. Para o caboclo da região do antigo Contestado, entretanto, existe apenas um: São João Maria.

*

Saiba mais:

PROJETO PALEOTOCAS


Contatos:
Telefone (Phone): 51.91665063 / 51.30320382
Email: paleotocas@gmail.com

Link da Sociedade Brasileira de Paleontologia

 




 
Localização da caverna usada por João Maria
Trecho do rio Iguaçu visto das cavernas de Porto União-SC

domingo, 28 de novembro de 2010

UFFS assume Parque Temático do Contestado no Irani

Em visita ao Irani: Vicente Telles Filho, profª Claudia Finger Kratovil, reitor Dilvo Ristoff, Vicente Telles, Delmir Valentini,  José Carlos Radin e o pró-reitor Joviles Trevisol. Foto: Acervo V. Telles.


Por Celso Martins

A Universidade Federal da Fronteira Sul (UFFS), com sede em Chapecó-SC, vai assumir o Parque Temático do Contestado, no município de Irani-SC. O interesse da instituição foi confirmado na visita do reitor Dilvo Ristoff à área do Parque na última semana, acompanhado de professores e pesquisadores.

O Parque idealizado pelo arquiteto Ires Lopes da Silva e o músico e folclorista Vicente Telles está com as obras inacabadas, como o palco junto a um lago artificial e arquibancadas nas encostas do morro onde aconteceu o combate de 22 de outubro de 1912 no Irani, início do Contestado.

Segundo o historiador Delmir Valentini, professor da UFFS, a idéia é criar no local um centro de memória, onde poderá funcionar uma unidade de pós-graduação em História, cujo projeto à Capes será encaminhado em março de 2011. O palco será utilizado de forma permanente com produções locais e nacionais e espetáculos de sons e luzes. A área abriga o local do combate e o túmulo do monge José Maria de Castro Agostinho, morto no combate de 1912, além do antigo cemitério e museu. 

O próximo passo será a criação de uma comissão, através de portaria do reitor Dilvo Ristoff, encarregada de elaborar o projeto de aproveitamento da infra-estrutura existente e a criação de outras. De quatro a seis professores da UFFS irão integrar a comissão, além do teatrólogo Romário Borelli, o músico Vicente Telles e o arquiteto Ires Lopes da Silva, entre outras pessoas.

Em depoimento gravado por Vicente Telles, o reitor da UFFS fala da idéia de criação de um grande projeto guarda-chuva, destinado a abrigar iniciativas nas áreas da pesquisa histórica, literatura e música regionais. Ristoff destacou a iniciativa de estabelecer uma "parceria de longo prazo" entre a UFFS e o município do Irani.

  Delmir Valentini

Trecho da área do Parque Temático do Contestado, nas margens da rodovia BR-153

 Museu do Contestado


 

 Túmulo de José Maria

 
Trecho do local do combate de 22 de outubro de 1912


Aspectos do palco inacabado

 
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Paisagem do Irani. Fotos: Celso Martins e Marco Nascimento

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MÚSICO VICENTE TELLES FILHO
VAI TOCAR PIANO EM PORTUGAL

O músico Vicente Telles (Filho) está arrumando as malas rumo à Portugal, onde o aguarda um convite para ser pianista da banda "Função Publika", especializada na animação de bailes e uma das mais famosas do país. Filho do também músico e fonclorista Vicente Telles, Vicentinho domina a moderna tecnologia musical, com apoio de programas e técnicas computacionais.

Confira um pouco dos trabalhos
de Vicentinho e do Função Publika:




domingo, 21 de novembro de 2010

VICENTE TELLES (1)

A voz e a memória dos
caboclos do Contestado


Imagens do trabalho de Vicente Telles: músico, compositor, folclorista, pesquisador das coisas do Contestado e da memória cabocla, incentivador dos estudos sobre o tema e das produções culturais correlatas. Reside em Irani-SC.

As fotos abaixo são de outubro de 2009, no Instituto Federal Catarinense (IFC), Campus Concórdia (Concórdia-SC). Mostram como Telles envolve os participantes no seu trabalho didático-pedagógico que visa estimular o civismo com exemplos dos combatentes do Movimento do Contestado.  
 








segunda-feira, 15 de novembro de 2010

NA AMÉRICA DO SUL

Prisão e penitência
Presença de João Maria
na Argentina de Rosas



Publiquei em postagem anterior que João Maria de Agostini chegara à Argentina por volta de 1830 e lá permanecera por cerca de 14 anos. O professor Paulo Pinheiro Machado leu, ficou em dúvida e entrou em contato com seu colega Alexandre Karsburg* para solicitar esclarecimentos. Karsburg, por sua vez, entrou em contato comigo, questionando a informação, o que me levou a vasculhar as anotações e documentos até descobrir ter cometido um equívoco. Fiz a devida anotação no corpo da própria postagem.

Como a presença de João Maria de Agostinho na Argentina é também (quase totalmente) desconhecida da historiografia brasileira, vamos aos fatos, segundo o professor Alexandre Karsburg, doutorando em História Social da UFRJ, hoje o principal pesquisador da vida e religiosidade do monge no Brasil.
(C.M.)


 Fragmentos do tempo - O que sabemos sobre a chegada de João Maria na região?
Alexandre Karsburg - João Maria de Agostini chegou na América em meados de 1838, partindo de Gênova (Itália) direto para Caracas, na Venezuela. Após isso, o eremita viveu algum tempo na Cordilheira dos Andes, peregrinando de um país para o outro, permanecendo algum tempo na Colômbia, depois Equador e Peru.

FT - E no Brasil?
Karsburg - O monge entrou no Brasil em 1843 via floresta amazônica, pela então vila de Tabatinga. Seguiu o curso dos rios até chegar em Belém, capital da província do Pará, onde tomou o vapor Imperatriz rumo ao Rio de Janeiro. Na capital do Império chegou a 18 de agosto de 1844, e foi habitar no alto do Cerro da Gávea por quatro meses. Em 15 de dezembro tomou outro vapor e foi para Santos. Desta importante cidade portuária subiu a serra, passou rapidamente por São Paulo e foi surgir em Sorocaba no dia 24 de dezembro de 44.

FT - É quando a historiografia brasileira passa a registrá-lo. O que acontece depois?
Karsburg - Após isso perdi a pista dele, encontrando-o novamente em Buenos Aires. Não se sabe se João Maria percorreu a distância entre Sorocaba e Buenos Aires por terra, talvez ele tenha voltado a Santos e dali tomado um vapor para a região platina. O fato é que ele chegou a Buenos Aires - possivelmente em 1845 - e foi se apresentar ao governador Juan Manoel de Rosas para pedir permissão para atuar como pregador do Evangelho. Acabou sendo enviado aos índios charruas que habitavam na fronteira entre Uruguai e Brasil. Como João Maria não era um missionário de índios, antes um pregador ambulante e autônomo, não obteve sucesso com os índios, voltou para Buenos Aires e foi detido por Rosas por desobediência. Foi duro para o italiano conseguir ser posto em liberdade, na verdade, ele não chegou a ficar exatamente preso, mas estava impedido de sair de Buenos Aires sem a permissão do governador.

FT - Mas conseguiu sair...
Karsburg - ...após alguns meses. Rosas concedeu passaporte para a província de Corrientes, no norte da Argentina. E lá se foi o eremita em peregrinação. Só que o italiano passou para o lado brasileiro, entrando no Rio Grande do Sul e estabelecendo moradia em dois cerros: Campestre, em Santa Maria, e no Botucaraí, na época pertencia ao município de Rio Pardo. Nestes dois cerros iniciou a sua trajetória de monge santo, não antes disso. Estamos em meados de 1847.

FT - O que mais pode acrescentar em relação à presença de João Maria na Argentina?

Karsburg - Rosas aceitava perfeitamente a presença de padres, missionários e pregadores em Buenos Aires, contudo, exigia deles algumas tarefas especiais, como ir até tribos indígenas catequizá-los. Acontece que estas tribos se encontravam em território a ser conquistado, fronteiras políticas não definidas, entre Buenos Aires, Corrientes, Entre-Rios (Argentina), República Oriental, Paraguai e Brasil. João Maria foi enviado para catequizar os índios charruas que viviam, em 1845, ao longo do Rio Uruguai, interior da República Oriental e Rio Grande do Sul. Rosas insistia que os missionários agissem como agentes políticos procurando tornar os índios nômades aliados de Buenos Aires. Para alguns missionários europeus foi difícil, quando não impossível, aliar intenções evangélicas com objetivos políticos. João Maria de Agostini não se adaptou a isso, nem ele e nem uma série de capuchinhos italianos e jesuítas que atuavam nos sertões da América do Sul em meados do século XIX.

FT - E a prisão dele?
Karsburg - João Maria esteve impedido de sair de Buenos Aires por um período entre 11 e 14 meses, e isto deve ter ocorrido entre 1845 e 1846. Na verdade, não consegui encontrar documentos que demarcassem o tempo exato de sua detenção em Buenos Aires.

FT - Como conseguiu reunir todas estas informações?

Karsburg - O trabalho do historiador por vezes é dificultado pela falta de fontes. Por sorte nossa, quando o monge esteve auto-exilado na Ilha do Arvoredo, entre dezembro de 1848 e maio de 1849, um sacerdote foi até lá conversar com ele, e desta entrevista produziu um relatório extenso sobre o passado recente de João Maria, inclusive de sua passagem pela Argentina e as desavenças com Rosas. Comparando as informações que o sacerdote apresentou em seu relatório aos depoimentos de dois franceses que também afirmaram terem visto João Maria em Buenos Aires, foi possível chegar às informações de sua estada na região platina. Mas o mais interessante disto foi que o eremita Juan Maria de Agostini, aquele que peregrinou nos desertos dos Estados Unidos entre 1863 e 1869, deixou manuscritos sobre suas viagens pela América. Em um trecho conta ter sido, de início, bem tratado pelo "ditator Rosas", mas este o obrigou a ir "catequizar índios nos pampas". O eremita não menciona sua detenção, mas registrou que saiu de Buenos Aires pelo tratamento "pouco lisonjeiro" de Rosas após seu retorno da catequese dos índios.

 
 *Alexandre Karsburg, autor do livro “Sobre as ruínas da velha matriz: religião e política em tempos de ferrovia” (Editora da UFSM, 2007), possui graduação em História pela Universidade Federal de Santa Maria, mestrado em História pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul e, atualmente, é doutorando em História Social pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, sob orientação da professora Dr. Jacqueline Hermann. No doutorado, desenvolve pesquisa sobre a trajetória do italiano Giovanni Maria de Agostini na América, que ficou conhecido no sul do Brasil como monge João Maria.